O que estamos perdendo quando deixamos de comer juntos?
A mesa como lugar de encontro
O que estamos perdendo quando deixamos de comer juntos?
01/09/2026 - www.vitorkapustanpsicanalise.com.br
Muito se fala sobre a dieta mediterrânea, seus peixes, frutas, verduras, cereais integrais e azeite de oliva. Mas existe algo nas refeições que não aparece em nenhuma tabela nutricional: a possibilidade de encontro.
Durante muito tempo, a mesa foi também um lugar de convivência. As pessoas comiam, conversavam, contavam histórias e acompanhavam, quase sem perceber, as mudanças umas das outras. A refeição não servia apenas para alimentar o corpo; ela criava um tempo compartilhado.
A mesa que compartilhamos
Hannah Arendt oferece uma imagem muito interessante para pensar isso. Em A Condição Humana, ela utiliza a mesa como metáfora daquilo que existe entre as pessoas: algo que, ao mesmo tempo, as reúne e estabelece um espaço entre elas. A mesa, nesse sentido, não é apenas um objeto; é um lugar onde diferentes pessoas podem compartilhar um mesmo mundo.
Talvez seja justamente isso que esteja desaparecendo de algumas famílias. Continuamos próximos, mas cada vez mais ocupados com coisas diferentes. O celular fica sobre a mesa, a televisão permanece ligada, cada um responde às próprias mensagens e, quando percebemos, terminamos a refeição sem saber muito bem o que aconteceu com o outro.
Quando estar junto não é o mesmo que estar presente
Essa preocupação com os momentos de reunião aparece também em Resiliência e Insistência, quando escrevo sobre a importância de criar e ritualizar espaços familiares de troca, nos quais histórias, experiências e aprendizados possam ser compartilhados. São momentos simples, mas que ajudam a fortalecer a conexão e os vínculos.
E aqui talvez esteja uma questão maior: estar junto não é necessariamente estar presente.
Presença exige alguma disponibilidade para o outro. Exige escuta, atenção e, principalmente, tempo. Essa ideia também atravessa O Direito de Faltar, em que discuto como um encontro significativo depende de vínculo, diálogo, confiança e reciprocidade, e não apenas da presença física em determinado espaço.
Talvez por isso uma refeição em família possa ter uma importância que ultrapassa a alimentação. Não porque sentar à mesa resolva os problemas de uma família, mas porque cria uma oportunidade para que algo aconteça entre as pessoas.
Uma história contada, uma preocupação percebida, uma lembrança compartilhada, uma pergunta simples sobre como foi o dia.
Em uma rotina cada vez mais acelerada, talvez sentar à mesa seja uma pequena forma de resistência à ideia de que todo tempo precisa ser produtivo.
O que tem para jantar?
No fim, talvez a pergunta não seja apenas o que estamos colocando no prato, mas quem ainda está sentado conosco à mesa, e se estamos realmente percebendo essa pessoa.