O que a narrativa faz por dentro — e por que histórias, nossas ou emprestadas, têm o poder de transformar o caos em sentido?
Contar para se Reconstruir
O que a narrativa faz por dentro — e por que histórias, nossas ou emprestadas, têm o poder de transformar o caos em sentido?
28/08/2026 - www.vitorkapustanpsicanalise.com.br
Contar para se reconstruir: o que a narrativa faz por dentro
Há uma frase que gosto de repetir, tanto no atendimento quanto para mim mesmo: contar a própria história não é um exercício de memória, é um ato de reconstrução. Quando narramos o que vivemos, para alguém, para um papel, ou simplesmente para nós mesmos, em silêncio, não estamos apenas recuperando fatos. Estamos dando forma ao que antes era só caos.
Freud chamou isso de "cura pela fala", e a expressão, com o tempo, virou quase um clichê. Mas o que está por trás dela merece ser levado a sério: o sofrimento que não encontra palavras tende a não desaparecer, ele se repete. Aquilo que a psicanálise chama de compulsão à repetição é, em boa medida, isso: o psiquismo tentando, de forma cega e automática, dar conta de algo que nunca foi verdadeiramente elaborado. Quando finalmente contamos, com sentido, com sequência, com começo, meio e fim, algo muda. O caos ganha contorno. A dor, sem deixar de doer, ganha um lugar onde caber.
Por que histórias dos outros também curam
Um fenômeno que sempre me interessou na escuta clínica é como as pessoas se apoiam em narrativas alheias, livros, filmes, músicas, personagens, para acessar algo delas mesmas que ainda não sabem nomear. Alguém chega numa sessão e, em vez de falar diretamente de uma perda, fala de um filme que a fez chorar sem saber exatamente por quê. Outra pessoa encontra, num personagem de ficção, uma versão mais suportável de um conflito que carrega há anos.
Isso não é fuga, é, na maioria das vezes, o caminho mais seguro que a psique encontra para chegar perto de algo difícil. A identificação com uma narrativa alheia funciona como uma espécie de anteparo: permite tocar no que dói sem precisar, de início, assumir a autoria direta daquela dor. Depois, aos poucos, com escuta e tempo, a pessoa começa a perceber que estava falando de si o tempo todo.
Narrar não é linear — e tudo bem
Uma armadilha comum é achar que a narrativa da própria vida precisa fazer sentido de forma imediata, com começo lógico e fim conclusivo. Não precisa. As histórias que mais curam costumam ser as mais desordenadas: cheias de idas e vindas, de capítulos que só fazem sentido quando revisitados anos depois, sob outra luz. Contar não é encontrar a versão definitiva do que aconteceu, é ir experimentando versões, cada uma um pouco mais próxima de uma verdade que também está em movimento.
Por isso, na clínica, não me interessa tanto corrigir a narrativa de alguém quanto acompanhar como ela se transforma ao ser contada e recontada. A cada nova versão, a pessoa costuma revelar, para o outro e para si mesma, uma camada que antes não estava disponível.
Um convite
Se você chegou até aqui, talvez valha a pena parar um instante e se perguntar: que história você tem contado sobre si mesmo ultimamente? Ela ainda serve? Ou já é hora de contá-la de outro jeito, não para mudar o que aconteceu, mas para mudar o lugar de onde você olha para o que aconteceu.
É esse movimento, entre lembrar e reconstruir, que sustenta boa parte do trabalho analítico. E é também, no fim das contas, um convite que cabe fora do consultório: o de seguir escrevendo, e reescrevendo, a própria história, com a coragem de deixá-la mudar. ______________________________________________________________ Vitor Kapustan, psicanalista e, como todo mundo, ainda escrevendo a própria história.