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Eu, tu, nós: dá pra amar sem se perder de si mesmo?

A autenticidade que praticamos lá fora também precisa valer dentro de casa

Outro dia me trouxeram uma dúvida que parecia simples e não era: como manter quem a gente é depois que passa a viver "a dois"? A pergunta ficou martelando, e decidi escrever essas reflexões a partir dela.

Uma pergunta que parece boba, mas não é

À primeira vista, parece óbvio: "continua sendo você mesmo, ué". Mas quem já viveu e vive um relacionamento sério sabe que não é bem assim. Aos poucos, sem perceber, a gente vai abrindo mão de pequenas coisas, um hobby que ficou pra trás, um grupo de amigos que se afastou, uma vontade que deixou de ser dita porque "não vale a pena discutir por isso". Nenhuma dessas renúncias, sozinha, parece grave. Juntas, formam algo que muita gente só percebe anos depois: a sensação estranha de já não saber, muito bem, quem é sem o outro por perto.

O que a psicanálise tem a dizer sobre isso

Existe um conceito bonito, do psicanalista inglês Donald Winnicott, que ajuda a pensar essa questão: a diferença entre um falso self, a parte de nós que se adapta, cede, se ajusta ao outro para manter a relação, e um verdadeiro self, aquele que sente, deseja e se expressa de forma espontânea. Winnicott não via o falso self como algo ruim em si; ele é, até certo ponto, necessário para conviver bem com qualquer pessoa. O problema é quando ele toma conta de tudo, e a espontaneidade vai ficando cada vez mais rara, mais escondida, até parecer que sumiu de vez.

Viver a dois, nesse sentido, não deveria significar substituir um "eu" por um "nós", deveria ser a soma dos dois, sustentada por duas identidades que continuam inteiras, ainda que entrelaçadas.

O paradoxo do vínculo saudável

Há também uma ideia que atravessa boa parte da psicologia dos relacionamentos: paradoxalmente, quanto mais segura uma pessoa se sente dentro de um vínculo, mais espaço ela tem para continuar sendo diferente do parceiro, e não o contrário. A insegurança é que costuma empurrar as pessoas para a fusão, para o medo de discordar, para apagar as próprias arestas achando que assim a relação fica mais protegida.

Só que o efeito, quase sempre, é o inverso: relações em que ninguém mais discorda, ninguém mais tem um hobby só seu, ninguém mais sai sozinho de vez em quando, tendem a ficar mais frágeis, não mais fortes, porque dependem de duas pessoas cada vez mais parecidas, e cada vez menos vivas por conta própria.

Um presente que se dá aos dois

Escrevi, em outro texto meu, sobre essa mesma tensão, só que pensando nas relações familiares, onde o desejo de aceitação também nos convida a engolir o que realmente pensamos:

"manter-se autenticamente firme em nossas opiniões e desejos pode ser difícil nas relações familiares, onde expectativas e tradições podem impelir um desejo de aceitação. Quantas vezes já não nos vimos, por exemplo, em um jantar ou almoço de família, engolindo a vontade de defender nosso ponto de vista porque o que está sendo falado não nos representa? Essa luta interna pode gerar um desgaste emocional intenso, levando à frustração. Assim, a autenticidade não é apenas um presente que oferecemos a nós mesmos; é, na verdade, um presente que também damos aos outros, ao permitir que eles nos vejam sem máscaras."

Vale exatamente o mesmo para a vida a dois. Continuar sendo quem se é, com opiniões próprias, gostos próprios, um "não" ocasional, não é um risco pro vínculo. É, na verdade, um dos poucos presentes genuínos que se pode dar a outra pessoa: deixá-la conhecer alguém real, e não uma versão editada só pra evitar fricção.

Voltando pra pergunta

Não tenho uma resposta fechada, e talvez essa seja justamente a questão.

Viver a dois inevitavelmente transforma a nossa vida. A gente negocia, cede, muda algumas coisas. Isso faz parte de qualquer relação. O problema começa quando, para preservar o vínculo, vamos deixando de lado aquilo que também nos constitui.

Por isso, talvez valha a pena fazer algumas perguntas de tempos em tempos:

O que eu fazia antes e deixei de fazer?
O que eu penso e já não digo?
O que eu gostaria de fazer, mas evito para não criar conflito?
Ainda consigo ser eu mesmo quando estou sozinho?

No meu livro Resiliência e Insistência, escrevi que “a autenticidade não é apenas um presente que oferecemos a nós mesmos; é, na verdade, um presente que também damos aos outros, ao permitir que eles nos vejam sem máscaras.”

Continuo acreditando nisso.

Talvez amar alguém não seja encontrar uma pessoa diante de quem precisamos deixar de ser quem somos.

Talvez seja encontrar alguém diante de quem podemos continuar sendo nós mesmos, e ainda assim construir um “nós”.