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O tempo do casulo

Por que uma fase difícil pode ser o início de uma transformação, não o fim de uma relação
É preciso suportar duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas.

A frase é da rosa, em O Pequeno Príncipe. O príncipe está de partida e quer protegê-la com uma redoma de vidro; ela recusa, diz que precisa suportar algumas lagartas para conhecer as borboletas, e que dos bichos grandes não tem medo, porque tem seus espinhos.

Freud dizia que começamos a vida regidos pelo princípio do prazer, querendo nos livrar do incômodo imediatamente. Crescer é aprender a tolerar alguma frustração em nome de algo mais importante. É o que a rosa faz: poderia pedir que matassem as lagartas, mas sabe que aí nunca conheceria as borboletas.

Melanie Klein ajuda a entender por que isso é difícil: muitas vezes aquilo que nos incomoda e aquilo que amamos estão na mesma pessoa, na mesma relação, amadurecer é sustentar essa ambivalência sem precisar decidir na hora se o outro é "bom" ou "mau".

Há casais que chegam a um ponto em que já não sabem se estão atravessando uma fase difícil ou apenas prolongando uma relação que deixou de fazer bem. Uma discussão não significa necessariamente que o amor acabou, às vezes significa que duas pessoas tentam, desajeitadamente, dizer o que ainda não conseguiram dizer de outro jeito. Nem toda crise anuncia um fim; algumas anunciam que a forma como a relação vinha funcionando já não serve mais. Isso assusta, mas também pode ser oportunidade.

E aqui vale uma ressalva importante: ser resiliente não é aguentar qualquer coisa. Repare que a rosa não diz que vai suportar tudo, diz "duas ou três lagartas", e guarda os espinhos para o que realmente a ameaça. Ela escolhe o que tolerar e se protege do que a destruiria. Desconforto não é sinônimo de sofrimento, e suportar não é sinônimo de permanecer.

Bion falava da capacidade de ficar na incerteza sem se precipitar em respostas, algumas relações precisam desse tempo de casulo: por fora parece que nada muda, por dentro tudo está se reorganizando. Primeiro muda o jeito de olhar, depois o de falar, depois o que se aceita e o que já não se aceita. A borboleta não é a lagarta que simplesmente aguentou firme. É a lagarta que se transformou.
Mas nem toda lagarta vira borboleta. Há quem suporte sofrimento por anos, numa relação, num trabalho, numa família, esperando que um dia aquilo se transforme, e não se transforma. Às vezes chamamos de resiliência aquilo que é só permanência na dor.

Por isso a pergunta certa não é "eu consigo suportar?", e sim "isso está se transformando? nós dois estamos conseguindo fazer diferente?". Se sim, ainda existe um caminho a construir. Se não, é hora de mudar alguma coisa, uma conversa, um limite, uma ajuda, uma decisão difícil.

Se você vive uma crise hoje, talvez não precise decidir tudo agora, só entender o que está machucando, o que cada um tenta dizer, e se os dois ainda estão dispostos a construir a mudança. Porque algumas relações não precisam de um fim. Precisam de uma transformação. Às vezes, o que precisa morrer não é a relação, mas a forma como os dois aprenderam a se relacionar.

Ainda estamos tentando sobreviver à relação, ou aprendendo a transformá-la?