O Trapaceiro na sala de aula: por que todo mundo usa até a última falta permitida?
Repare numa coisa: quase ninguém falta às aulas por um motivo específico. A maioria simplesmente administra as faltas — planeja o semestre já contando com aquele percentual que a lei permite, como se fosse um crédito a ser gasto, não uma exceção para imprevistos. Fiz um pequeno levantamento exploratório com 48 universitários — sem qualquer pretensão estatística, apenas um termômetro informal — e o padrão apareceu com clareza: mais da metade disse que usar todas as faltas é só "a forma mais prática de administrar o semestre".
Isso não é preguiça. E, ao investigar esse fenômeno pra um trabalho de conclusão de curso em Filosofia, percebi que ele tem nome — e não é um nome moderno.
O Trapaceiro sempre existiu
Em praticamente toda mitologia humana existe uma figura parecida: Hermes na Grécia, Loki na Escandinávia, Exu no candomblé. O psicólogo Carl Jung chamou esse arquétipo de Trickster — o Trapaceiro. É a energia psíquica da esperteza, do atalho, da fuga elegante às regras.
Jung também notou algo importante: o Trapaceiro ganha força justamente quando um sistema perde seus valores e referências. Ele não é a causa da crise — é o sintoma dela.
E é exatamente isso que parece estar acontecendo dentro das universidades. Quando perguntei aos estudantes com que imagem eles se identificavam ao faltar, boa parte escolheu — sem que eu precisasse explicar o conceito — algo muito próximo do Trapaceiro: quem busca a brecha, o mínimo esforço, o jeito de "passar sem viver".
Um cansaço que não é preguiça
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han tem uma frase que resume bem o que esse levantamento informal sugeriu: a sociedade do desempenho produz gente que já não consegue desejar. Mais de metade dos estudantes que responderam apontou cansaço mental e emocional — não falta de interesse — como o principal motivo pra faltar.
É um dado que muda a leitura moral do fenômeno. Não é um aluno "desinteressado" no sentido antigo da palavra. É alguém genuinamente exausto, tentando sobreviver dentro de um sistema que cobra desempenho o tempo todo — nas notificações, nos prazos, nas redes sociais, na própria faculdade.
E, curiosamente, mais da metade também disse sentir culpa ao faltar. Ou seja: o Trapaceiro não anda satisfeito consigo mesmo. Ele sabe que está trapaceando, e isso pesa.
Nietzsche já via isso chegando — só que ao contrário
Há mais de 150 anos, Nietzsche alertava que as universidades da sua época formavam "eruditos precoces, mas não homens livres" — gente cheia de conteúdo técnico, mas sem liberdade de pensamento.
O curioso é que, hoje, o problema praticamente se inverteu: não é mais o excesso de erudição sem liberdade. É a falta de ambas. O estudante contemporâneo muitas vezes não está nem sobrecarregado de conteúdo nem exercitando pensamento livre — está, sobretudo, cansado e desconectado do sentido do que estuda.
O que poderia mudar isso?
Aqui entra outra imagem simbólica que uso no trabalho: no Tarot, logo depois d'O Louco (a energia bruta do começo, cheia de potência mas sem direção) vem O Mago — aquele que dá forma, organiza, transforma impulso em ação.
A ideia é simples: o estudante de hoje frequentemente está na posição d'O Louco — com energia e curiosidade latentes, mas sem alguém que o convoque a um caminho. E o papel do professor, nessa leitura, seria justamente o d'O Mago: não um controlador de frequência, mas alguém capaz de dar direção a essa energia.
Um dado desse mesmo levantamento reforça isso: mais da metade dos estudantes disse que seu engajamento depende, sobretudo, da didática e da presença do professor. Ou seja: a motivação para aprender continua profundamente relacional. Ela não nasce sozinha — nasce do encontro.
Uma leitura psicanalítica
Enquanto escrevia esse trabalho, não consegui deixar de ouvir, por trás da filosofia, uma pergunta que também atravessa meu consultório: o que acontece quando alguém perde contato com o próprio desejo? Porque é exatamente disso que se trata — não de preguiça, não de falta de caráter, mas de um sujeito que já não sabe mais nomear o que quer, nem por quê. A psicanálise tem um jeito de escutar isso: o desejo nunca é dado de forma pronta — ele se estrutura no encontro com o outro, na fala, no reconhecimento. Quando esse encontro falha (na sala de aula, mas também em casa, no consultório, em qualquer vínculo), o sujeito não fica só desmotivado — ele fica, de fato, mais sozinho consigo mesmo do que gostaria. Talvez seja por isso que tanta gente hoje não consiga nomear exatamente o que sente: cansaço, tédio, vazio, tudo isso é, às vezes, apenas a forma que o desejo encontra pra pedir socorro quando ninguém mais está escutando.
O que fica
Talvez o "direito de faltar" nunca tenha sido, no fundo, sobre faltar. É sobre o que aconteceu — ou deixou de acontecer — para que estar presente tenha parado de valer a pena. Antes de cobrar frequência, talvez a pergunta mais honesta seja: o que fizemos do encontro que deveria acontecer naquela sala?
Este texto é uma adaptação de um trecho do meu TCC em Filosofia, sobre a crise de sentido no ensino superior contemporâneo.