Recebi da minha cunhada Sandra um trecho de uma entrevista de Belchior, juntamente com um vídeo musical. Eu já conhecia a música Conheço o meu lugar havia muito tempo, como tantas outras de Belchior que atravessaram diferentes momentos da minha vida e de muita gente. Mas aquele "fragmento" de entrevista me fez voltar à canção de outro lugar.
Talvez seja isso que algumas músicas fazem: continuam esperando dentro de nós até que alguma coisa aconteça para que possamos escutá-las novamente.
Sempre achei Conheço o meu lugar uma música muito bonita. Há nela uma melancolia difícil de explicar, mas fácil de reconhecer. A melodia parece carregar justamente aquilo que a letra diz: a sensação de alguém que olha para a própria história, reconhece as marcas que recebeu, mas não aceita que elas determinem para sempre o lugar que deve ocupar.
Belchior fala do homem comum. Fala daquele que vive a história sem necessariamente aparecer nela como personagem principal. O homem que trabalha, sofre, sonha, envelhece, insiste. O homem cuja vida pode parecer pequena quando vista de fora, mas que carrega dentro de si uma possibilidade de transformação.
E é nesse ponto que a música começa a me interessar particularmente.
Belchior não parece falar de esperança como quem espera passivamente que as coisas melhorem. Em uma entrevista concedida a Ricardo Guilherme, em 1983, ele fala do sonho como uma espécie de “utopia provável”, algo que pode ser alcançado. E vai além: diz que sonhar não é alienação nem apatia. Para ele, “sonhar é ver antes”. Nas palavras dele: "O sonho pra mim não é uma coisa alienante, não é uma coisa que lhe leva para a apatia ou para uma região sombria onde não acontece nada. O sonho é uma esperança, o sonho é, enfim, uma visão dialética, uma visão crítica, uma visão pertinente à realidade concreta. Sonhar é ver antes. É prever."
Essa frase talvez seja uma das melhores portas de entrada para compreender sua ideia de esperança.
Esperar, nesse sentido, não é simplesmente ficar parado diante do futuro. É conseguir perceber uma possibilidade antes que ela exista concretamente. É imaginar outro caminho sem negar o caminho que existe. A esperança não é uma fuga da realidade. Há uma diferença importante entre esperança e ilusão. A ilusão pode nos afastar da realidade. A esperança, ao contrário, pode nos devolver a ela de outra maneira.
Quando Belchior fala do sonho como algo ligado à realidade concreta, há uma ideia profundamente filosófica nisso. O futuro ainda não existe, mas o presente contém possibilidades que ainda não foram realizadas.
O filósofo Ernst Bloch pensou justamente nessa direção ao desenvolver sua filosofia da esperança e do “ainda-não”. O futuro não é simplesmente aquilo que chegará até nós. Ele também é aquilo que pode ser construído a partir das possibilidades existentes no presente.
Por isso, esperança não precisa significar certeza.
Talvez seja justamente o contrário.
Só existe esperança verdadeira onde o futuro ainda não está garantido.
Esperar é sustentar uma possibilidade sem possuir a garantia de sua realização.
E talvez a esperança, como Belchior a compreendia, também more aí.
“Mente positiva” ou voz ativa?
Há outro trecho de Conheço o meu lugar que sempre me chama atenção:
“Fique você com a mente positiva
que eu quero é a voz ativa.”
Belchior parece fazer uma provocação à ideia de que basta pensar positivamente para que a vida se transforme, mas não basta. Existe uma diferença entre repetir para si mesmo que tudo vai dar certo e encontrar uma maneira de participar ativamente da própria história.
A “voz ativa” não é apenas falar mais alto. É deixar de ocupar somente o lugar que nos foi atribuído e poder dizer: eu também participo da construção do meu lugar no mundo.
Por isso, quando Belchior afirma:
“Esta é minha canoa: eu nela embarco.”
Há algo de profundamente existencial nessa imagem. A vida não aparece como uma estrada perfeitamente planejada. É uma canoa. É preciso embarcar nela. Mesmo sem garantias. Talvez seja justamente por isso que a figura do homem comum seja tão importante em Belchior. O homem comum não é aquele que não tem importância. É aquele cuja existência geralmente não recebe o reconhecimento que merece. A história costuma registrar grandes nomes, grandes acontecimentos, grandes vencedores. Mas existe uma história silenciosa acontecendo todos os dias: a história das pessoas que continuam. Que acordam. Que trabalham. Que perdem. Que amam. Que fracassam. Que recomeçam. Que tentam compreender o que aconteceu consigo mesmas. A esperança talvez esteja também aí: na possibilidade de que uma pessoa comum consiga olhar para a própria vida e perceber que ela não está completamente encerrada pelo que já aconteceu.O passado pesa, mas não precisa ser a única linguagem possível para o futuro.
E a psicanálise?
É aqui que a música encontra, para mim, a psicanálise. Na clínica, muitas vezes encontramos pessoas que chegam acreditando que já sabem quem são. Ou, ao contrário, chegam acreditando que aquilo que viveram determinou definitivamente quem poderão ser. A psicanálise não oferece uma promessa de futuro. Ela não diz: “vai dar tudo certo”. Talvez sua contribuição seja mais modesta e, justamente por isso, mais profunda. Ela oferece um espaço para falar daquilo que ainda não conseguimos compreender.
Ao falar, algo pode ganhar outro sentido. Aquilo que parecia destino pode revelar-se repetição. Aquilo que parecia fraqueza pode revelar uma história. Aquilo que parecia não ter saída pode, pouco a pouco, tornar-se uma pergunta.
E uma pergunta já é diferente de uma sentença.
Freud mostrou que aquilo que não é elaborado tende a retornar de outras formas. A psicanálise trabalha justamente nesse território entre o que aconteceu e o que ainda podemos fazer com aquilo que aconteceu. Não podemos mudar o passado. Mas podemos modificar a relação que estabelecemos com ele. E talvez exista aí uma forma muito particular de esperança: não a esperança de apagar o sofrimento, mas a possibilidade de produzir outro destino para aquilo que nos marcou.
A esperança que não espera.
Talvez seja por isso que a esperança de Belchior me pareça tão diferente daquela ideia de esperança que tantas vezes encontramos no discurso cotidiano.
Não é dizer que tudo ficará bem. Não é fechar os olhos para o sofrimento. Não é transformar a dor em uma frase bonita.
É olhar para a realidade, inclusive para aquilo que nela existe de difícil, e ainda assim conseguir perguntar:
o que pode nascer daqui?
Essa pergunta contém uma força enorme. Porque ela não nega o presente. Mas também não permite que o presente seja confundido com o definitivo. Belchior dizia que sonhar era “ver antes”. Talvez a esperança seja justamente essa capacidade de enxergar uma possibilidade antes que ela tenha forma. Não como fantasia.Não como certeza, mas como abertura.
Por que escrever sobre isso agora?
Talvez porque algumas músicas não terminem quando acabam, mas continuam acontecendo dentro da gente.
Talvez seja esse o outro lado da voz ativa de que Belchior falava: não é só participar da própria história, é também estar disponível para escutá-la de novo, de um lugar diferente de onde se estava da última vez. A canção não muda. Quem muda é quem escuta, e é aí que ela volta a dizer alguma coisa. A música continua sendo a mesma, mas aquilo que encontramos nela pode mudar. E escutar verdadeiramente talvez seja também permitir que aquilo que ouvimos produza em nós uma pergunta, um deslocamento, uma possibilidade de pensar.
A psicanálise começa muitas vezes nesse intervalo, entre aquilo que sentimos e aquilo que ainda não conseguimos dizer.
Às vezes uma música chega antes da palavra. Uma frase. Uma lembrança. Uma voz.
E alguma coisa começa a se movimentar.
Foi isso que aconteceu comigo ao reencontrar Belchior.
Não escrevo para explicar sua música, nem para transformar uma canção em teoria. Escrevo porque, ao escutá-la novamente, alguma coisa em mim pediu para ser pensada.
Talvez a esperança seja isso também. Não uma resposta pronta sobre o futuro, mas a possibilidade de continuar fazendo perguntas quando ainda não sabemos onde elas vão nos levar.
Porque, às vezes, sonhar não é imaginar um mundo que não existe, mas conseguir enxergar, no mundo que existe, aquilo que ainda pode nascer.