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Quando o chão desaparece: holding e handling em Winnicott

O que acontece quando perdemos, ao mesmo tempo, o apoio emocional e a sustentação prática da vida?
QUANDO O CHÃO DESAPARECE


Às vezes, não é uma coisa só que nos derruba.
Uma relação termina. Alguém importante vai embora. A rotina muda. E aquilo que antes parecia simples começa a exigir uma energia enorme.
É como se, de repente, a vida perdesse um pouco do seu lugar.
Foi pensando nisso que voltei a dois conceitos de Donald Winnicott que considero muito interessantes: holding e handling.

Holding: quando alguém nos sustenta

O holding tem a ver com a sustentação emocional.
É aquela sensação de ter alguém por perto, de existir um lugar seguro, uma presença que nos permite atravessar momentos difíceis sem precisar resolver tudo sozinhos.
E o curioso é que muitas vezes só percebemos o quanto éramos sustentados quando essa sustentação desaparece.
É como o chão. Enquanto está ali, nem pensamos nele. Só percebemos sua importância quando sentimos que podemos cair.

Handling: quando o cuidado organiza a vida

O handling está mais ligado ao cuidado concreto, ao modo como nossas necessidades são atendidas no cotidiano.
Pode estar presente na rotina, na organização das tarefas, nos cuidados com o corpo e nas pequenas coisas que ajudam a vida a funcionar.
Pense em alguém que durante muito tempo contou com outra pessoa para organizar determinadas coisas do dia a dia. Quando essa ajuda desaparece, não perdemos apenas uma pessoa.
Perdemos também uma parte da organização que sustentava nossa rotina.

E quando perdemos os dois?

É aqui que esses conceitos ficam especialmente interessantes.
Imagine perder, quase ao mesmo tempo, uma pessoa que representava segurança e companhia e outra que ajudava a manter a vida prática funcionando.
São perdas diferentes.
Mas podem produzir uma sensação parecida:
“Eu não sei mais como dar conta de tudo.”
Talvez seja por isso que algumas crises pareçam tão grandes. Às vezes, não existe apenas uma perda acontecendo. Existem várias rupturas acontecendo ao mesmo tempo.
E aquilo que sustentava a pessoa, sem que ela percebesse, deixa de estar disponível.

E na clínica?

Talvez a primeira coisa a fazer não seja interpretar.

Antes de tentar entender profundamente o que está acontecendo, às vezes é preciso simplesmente oferecer um lugar onde a pessoa possa respirar e pensar novamente.

“Vamos devagar.” “Você não precisa resolver tudo agora.”

“Vamos entender isso juntos.” Parece pouco.

Mas uma presença estável pode ser muito importante quando alguém sente que perdeu o chão.

Depois, aos poucos, podemos ajudar a pessoa a recuperar pequenas coisas da vida: o que precisa ser resolvido primeiro, o que pode esperar, onde pode pedir ajuda e o que já consegue fazer sozinha.

Não para substituir aquilo que foi perdido.

Mas para começar a construir novas formas de sustentação.

Talvez o objetivo não seja voltar ao mesmo lugar

Talvez amadurecer não seja aprender a nunca mais precisar de ninguém.
Talvez seja reconhecer nossas fragilidades, compreender aquilo que nos sustenta e, quando necessário, encontrar novas formas de seguir.
Como escrevi em Resiliência e Insistência:
“Mudar de rota não é sinal de fraqueza — é, muitas vezes, o mais corajoso dos movimentos.”
Talvez Winnicott nos ajude justamente a pensar sobre isso: quando o chão desaparece, nem sempre precisamos reconstruir exatamente o que tínhamos antes. Às vezes, precisamos compreender o que perdemos, reconhecer aquilo de que ainda precisamos e, aos poucos, encontrar uma nova maneira de caminhar.
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Uma reflexão que também nasceu do meu livro

Este texto parte de uma reflexão sobre Winnicott e sobre algo que venho pensando e estudando na clínica: o quanto precisamos de sustentação para atravessar determinados momentos da vida.

Essa questão também está presente no meu livro Resiliência e Insistência – Quando Avançar e Quando Recalcular a Rota, onde reflito sobre nossas formas de enfrentar as dificuldades, reconhecer nossos limites e compreender quando é preciso seguir em frente ou mudar de caminho.

Se essa reflexão fez sentido para você, talvez meu livro também possa conversar com alguma experiência da sua própria vida.